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Quatro considerações para ministérios urbanos

As cidades são verdadeiros ecossistemas. Sua diversidade social é altamente complexa e a interação entre os indivíduos não é diferente. Um dos membros do ecossistema da cidade é a igreja. Como parte dela, mas ao mesmo tempo diferente (aplicando a idéia de que “estamos no mundo, mas não somos do mundo”, segundo João 17), deve salvaguardar um conjunto de normas, que lhe vão permitir continuar sendo sal e luz na terra. Não é moralismo, mas o que podemos obter das Escrituras em textos como Jeremias 29: 4–7 ou Atos 2: 41–47, para mencionar apenas alguns.

Hostilidade para com o Evangelho é um assunto que o Senhor Jesus Cristo já nos falou no Evangelho de Lucas: “Quem vos ouve a vós a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita rejeita aquele que me enviou”. Isso vai acontecer. É um fato que nem todos na cidade estarão dispostos a ouvir a mensagem do Evangelho, assim como muitos vão rejeitá-la de forma agressiva. “Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.” (Mateus 5: 11–12).

Além da hostilidade e rejeito (ao Evangelho) das pessoas de coração duro, e confiando que Deus nos prometeu que ia estar conosco até o fim, as pessoas que queremos nos envolver com ministerio urbano (na plantação e na revitalização de igrejas) temos que prestar atenção em certas áreas onde deveríamos estar nos capacitando permanentemente para poder compartilhar muito melhor as boas novas do poder transformador de Cristo, do jeito que fala Susan Baker, co-autora do livro ‘The urban face of mission: ministering the gospel in a diverse changing world’.

1. O poder modelador da cultura. Antes de abordar a missio dei em qualquer cidade, grande ou pequena, temos que entender quão profundamente nossa cultura atingiu nossas próprias vidas. Eis que esse poder influencia o estilo e conteúdo de nosso ministério. A cultura da cidade é sustentada na cosmovisão que influencia todas as áreas dela. Somos parte do ecossistema e, mesmo atuando contraculturalmente, não somos totalmente impermeáveis à cultura. Todos e cada um dos que trabalhamos num ministério urbano precisamos estudar como e quão profundo essa cultura tem nos atingido, ao mesmo tempo que deixamos que o Evangelho da graça possa fazer seu trabalho de dentro de nos pra fora, até nos transformar em verdadeiras luzes no meio dos cantos mais escuros da sociedade. Não é ser totalmente impermeável à cultura (que nos leva ao fanatismo religioso), nem ser totalmente permeável (que nos leva ao liberalismo bíblico). Gosto muito das palavras de Harvie Conn: “O centro do Evangelho sempre deve ser especifico para o contexto… mas o centro sempre é o centro, seja Jesus o Messias ou seja Jesus o Senhor. A “mesmice” do Evangelho não se vê corroído pela particularização do Evangelho quando é apresentado. Simplesmente se torna especificamente apropriado”. Porém, é a primeira consideração: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2)

2. A necessidade de uma vida encarnacional. É muito mais fácil teorizar da vida encarnacional (que se encarna) do que implementar… ainda mais na própria vida. Sua importância é puder chegar fazer parte das pessoas onde você está servindo (Cristo se fez um de nós, mas sem pecado), entender às pessoas, compreender as suas lutas, para puder confrontar todos os aspectos da auto-suficiência que atua contra a mensagem da graça de Cristo, com a pregação da Palavra de Deus. O ministério urbano deve ser relevante para que seja eficaz, no prático e nas Escrituras. Quando Deus entra no mundo na pessoa de Cristo, fez-lo vindo à morar conosco. Lance Ford e Brad Brisco (no livro “Next door as it is in Heaven”) destacam a palavra eskenosen do grego (literalmente levantar um barraco) como a palavra chave de uma vida misional encarnacional. Eugene Peterson, na sua tradução libre da Biblia (The Message), traduce João 1:14 como “A Palavra se fez carne e sangue y se mudou ao nosso bairro”. Isso faz ao cristianismo único. Não existe outra religião no mundo onde seus deuses se tornassem num de nós para viver o estilo de vida que nós deveríamos viver e morrer a morte que nós deveríamos morrer. Este mensagem é difícil de aceitar. Então a vida encarnacional permite-nos ecoar as vidas transformadas pelo Evangelho de Jesus Cristo, mas de maneira contextualizada, real, perto, vizinha, amiga. Não devemos confundir ‘contextualização’ com ‘relativização’ da Palavra de Deus. É por isso que o ponto anterior é importante, para não cair no poder modelador da cultura que tentará, de qualquer jeito, relativizar as Escrituras.

3. O perigo de não cuidar da nossa espiritualidade. O ministério, ainda mais se é desenvolvido sozinho, pode ser muito perigoso, considerando que Satanás tentará inducir-nos colocar nossos afetos em outras coisas além de nosso Senhor. Bonhoeffer diz que há uma necessidade cristã de comunidade que nos aproxima de Deus e ao próximo.

A tarefa mais difícil no ministério urbano é permanecer de bom humor, servindo os outros com otimismo, com uma alta e evidente espiritualidade. O ministério exige estar dando constantemente; o ministério urbano particularmente, ainda mais. Mas você não pode dar o que não tem. Se você não está recebendo apoio espiritual, então vc tá indo direito pro esgotamento fisico e espiritual.

Considerando que a maior parte dos relacionamentos nas cidades são relacionamentos de consumo (e poucos relacionamentos são de pacto), as disciplinas espirituais devem ser prioridade, porque nos ajudam em nosso caminhar cristão. Da mesma forma em que as pessoas podem ser muito disciplinadas no esporte, a leitura da Biblia, a oração, a meditação na Palavra deveriam ser nossas práticas diarias.

4. A necessidade de avaliação. Em tudo planejamento existe uma avaliação que nos permite ou continuar pra frente no trabalho, ou corrigir quando se esta fazendo errado. Muitos dos erros no ministério poderiam ser corrigidos se implementar um processo de avaliação. É necessário avaliar regularmente liderança, programas, recursos para manter um ministério eficaz. O Apóstolo Paulo pede pro Tito avaliar à igreja em Creta para potenciar a eficácia do ministerio da pregação da Palavra na cidade.

Hoje mais do que nunca, com as mudanças dinámicas nas comunidades urbanas, aquilo que foi uma ferramenta útil, provavelmente já não é, tanto por ter se tornado irrelevante ou mesmo porque pode estar se fazendo errado. Então as avaliações permanentes são muito boas.

Nenhuma dessas considerações são regras absolutas. Porém são proveitosas no desenvolvimento de ministérios urbanos sadios. Creio que estes considerações, nas mãos de nosso Senhor soberano, podem ser muito boas no preparo de pastores, plantadores de igrejas e lideres, para eles ser eficazes no seu chamado ministerial. Susan Baker diz que os lideres urbanos precisam de treino desenhado à medida nestas áreas. Concordo com ela quando diz “Independentemente de seu treinamento ser formal em uma sala de aula do seminário ou informal enquanto caminham com um mentor lado a lado pelas ruas, os líderes urbanos devem aprender como usar o poder de Deus para combater os muitos desencorajamentos que enfrentam. Eles devem estar preparados para levar o evangelho integral às nações que entram em nossas cidades”.

Texto: Jano Molina | Foto: Daniel Adesina